Como todos os fãs de Harry
Potter, pulei da cadeira ao ler a declaração – mal interpretada – da J.K Rowling
sobre Harry ter enlouquecido e sonhado com “tudo” o que foi escrito nos
livros. Pensei que ela estivesse
sacaneando com a imprensa novamente, mas confesso, me bateu um medo. No
primeiro momento.
Mas quando eu fui dormir,
tentando não pensar nas coisas eu sempre penso, lembrei da polêmica declaração. E eu me dei conta de uma
coisa. O livro me fez refletir sobre amizade, escolhas, família, morte e tantas
outras coisas... Mas eu nunca tinha parado para pensar em um ponto crucial.
O menino vivia na porra de um armário!
Um armário! Além de ser
maltratado e rejeitado, ele morava em um cubículo em baixo da escada. Sonhei com
o Harry do armário. Brincando com seu exercito imaginário, conversando com insetos
e sonhando com uma outra vida. Pensei em
uma criança, profundamente abalada, imaginando dia após dia uma vida diferente,
e ir formando, passo a passo, o guarda caça de Hogwarts, a escola, os
professores, os amigos, os poderes e até
uma justificativa realmente boa para a morte de seus pais.
Pieguices a parte, o armário é só
uma metáfora. A ideia de que a infância
é linda não cola mais. A infância é uma face difícil pra cacete! Ou você se
enquadra em um grupinho logo, ou o ensino fundamental não será nada legal com
você. Não foi tão legal assim pra mim, e
curiosamente, para outras milhões de pessoas também não. E mais bizarro ainda é o fato dessas
crianças, terem se identificado com esse garoto, que aparentemente não tem nada
de especial. Ou com seu amigo de família grande e sem dinheiro, ou com sua
amiga que não se enquadra nos padrões de beleza e comportamento esperados para “uma
garota”. Ou com algum desses personagens, complicados e desajustados que fazem
dessa história uma história tão rica, que é muito mais complexa do que
julgam os intelectuais bacanetes por ai.
Da minha parte, não tenho
ressalvas a fazer sobre o livro. Eu mergulhei dentro dele, como fiz com poucos. Foi
bom brincar de fazer feitiços, colocar
capas pretas e escolher a qual casa eu pertencia. Foi bom me imaginar no quadribol, e quase
conseguir sentir o gosto da cerveja amanteigada.
Eu nunca estive em Hogwarts.
Ninguém que eu conheço esteve, na verdade. Mas eu posso descrever cada um daqueles
corredores, mais perfeitamente do que as ruas do meu bairro. E acredito que
parte da minha sanidade se manteve intacta graças a esse livro.
Mas, sinceramente, se Harry tivesse enlouquecido dentro no
armário, só tenho a dizer que foi bom enlouquecer
com ele.
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