Havia esta Senhoria, e havia também esta casa grande. Tão
grande que parecia castelo. Morava sozinha, mas sozinha não era. A casa sempre cheia de pessoas e de vida. De
alegria e de festa. Senhorita era bem
vista por todos e também via todos com muito amor.
As festas, essas, não tinham hora para acabar. A casa estava
aberta e todos podiam se apresentar. Ela dava abrigo, afeto e o que de bom pode
se dar.
Além de pessoas, Senhorita gostava de suas joias, seus
ouros. Lembranças de uma família, que ela sentia mais perto, quando usava. Num desses dias, que podia ser como outros
mas não foi, um brinco de Senhoria sumiu. Todos os amigos, presentes na casa, puseram-se
a procurar. Mas não, ele não foi encontrado.
Senhorita triste, foi se deitar, pedindo aos outros, que se
fossem. No outro dia os veria. Mas não,
não foi isso que ela fez. Trocou as fechaduras da casa, fez sua festa, mas não
chamou todos como antes. Apenas os amigos estreitos, de longa data, do peito, foram
convidados a se achegar.
Algumas festas depois, eis que outro fato sucedeu. O brinco, dourado, bonito reapareceu. Senhorita,
indignada, só viu uma solução: alguém que estava ali tinha pegado, e se
arrependido dessa decisão! Não, isso ela
não podia aceitar. Seus amigos, seus ótimos amigos! Expulsou todos, sem pena,
sem dó. Não precisava.
Nos dias que se seguiram, ela aumentou o muro. Tirou os
espelhos, que ficavam incomodando e se metendo onde não eram chamados. Fechou as cortinas, preferia o escuro.
Preferia o silêncio.
O som era apenas, do seu toca-discos. Ela ainda se
enfeitava, com seus vestidos e joias, botava música e tinha mesa posta na sala
de jantar. Volta e meia ela, via, por entre os portões, seus antigos amigos,
olhando pra lá. Pediam desculpas, juravam de pé junto. Ah, ela não queria
escutar. Botou lona nos portões, aumentou mais o muro. Continuou a dançar.
Mas um dia de festa, foi
lá botar a mesa, e sua bandeja de porcelana, ela não encontrava. Pegou outra qualquer, que estava guardada, nos
armários imensos e fechados. Pegou uma
de inox, lustrou sua superfície e caminhou em direção à mesa.
Mas antes da mesa, encontrou a si mesma, refletida naquele
inox, que era bandeja, mas era espelho. Não se parecia nada com ela. Estava
velha, muito mais velha do na verdade era. Com olheiras profundas e rugas
acentuadas. Também a sua roupa, outrora tão linda, estava desbotada e comida
por traças. Deixou a bandeja cair, certa de que era um sonho. E o barulho a acordou.
Para uma realidade ainda mais assustadora. Assim como ela, a
casa era uma ruina. Com moveis carcomidos, cortinas rasgadas a teto caído. Em
volta não se via, nem sombra de seus velhos amigos.
Também o seu brinco, amado e preferido, não brilhava
dourado. Estava descascado e fosco.
Nada tinha do velho tesouro.
O brinco de Senhorita, afinal de contas, também não era de ouro.
Nada tinha do velho tesouro.
O brinco de Senhorita, afinal de contas, também não era de ouro.
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