Todas as quartas feiras eu passarei a postar um conto familiar. Eu já fiz muitos deles e pretendo fazer mais. Qualquer semelhança com a realidade, é coincidência, óbvio.
A morte do Patriarca
Ele não era um homem bom. Por vezes, suas opiniões eram motivo de graça para os outros, e o seu gênio afastava quem via de fora e quem conhecia. Mas certamente ele se parecia com um patriarca. Voz grave, risada forte e bolso fundo.
Nascera bem, tinha nome de herói e escolhera o dia certo pra morrer. Final do Campeonato brasileiro. Flamengo contra não sei quem. Não importa. Todos da família eram flamenguistas, e o falecido também era. De modo que estavam reunidos em pequenos grupos para assistir. Ele morreu uma hora depois da final, quando a festa estava apenas começando.
As pessoas foram chegando com seus grupos, ainda enroladas em bandeiras e com suas cornetas sem voz pendendo no braço. Um a um, eles iam se aconchegando e indo falar com a esposa e as filhas.
A esposa estava arrasada. Apesar do olho roxo - vestígio da ultima briga do casal - ainda estar brilhando, o amor pelo difundo parecia ser maior. As filhas sentadas olhando para o nada causavam um misto de pena e constrangimento. Nenhuma delas realmente se dava bem com o pai. Mas aprenderam com ele a arte do fingimento, e estavam praticando naquele momento.
Ele tinha quatro filhas. Eu já disse que ele não se dava bem com elas, mas a caçula foi a que mais sofrera. Engravidara aos dezessete, de um cidadão sem eira nem beira, sem dote nem posse. Foi expulsa de casa, claro. O patriarca tinha que manter a ordem e a moral. Mas o “noivo” também a expulsou. E o pai, que não podia deixar filha e neta no relento, manteve as duas em uma das casas que antes ele alugava.
A caçula brigava muito com o pai, pois era igual ao patriarca. O mesmo jeito áspero de falar, nervos em fúria e nariz pro alto. Ela não estava lá, na hora da noticia. Estava na casa do novo namorado. O povo não foi embora, mesmo depois de consolar a esposa e as outras filhas. Eles queriam esperar pela caçula.
Ela chegou, presenteando o publico com o show que queriam. Gritou e chorou. Esperneou e suspirou, de vez em vez entoando o coro: “Por quê? POR QUÊ?”. Estava indignada a pobrezinha.
Anos depois, em uma mesa de bar, algum parente diria: “Um viva ao nosso querido irmão que não está conosco, mas morreu feliz, no dia do jogo, rodeado pela família.” E os outros concordariam, erguendo os copos. Mas hoje não, ainda não era o tempo dos “vivas”, e todos estavam ansiosos para ouvir a caçula.
- Meus sentimentos, disse um. Vocês eram tão apegados.
- Sim, sim. Ela responde se debulhando. Ah... meu pai... A meu Deus... No dia do jogo. De quanto ficou o jogo?
- Dois a um pro Flamengo.
- Graças a Deus!
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